1 de out de 2006

Traços do golpe de 64

Ubiratan Brasil

O ex-presidente João Belchior Marques Goulart (1918-1976), conhecido popularmente como Jango, não era uma figura fácil de caricaturar: não possuía características físicas marcantes, que pudessem ser distorcidas pelos artistas na feitura de um retrato de fácil identificação pelo público. No máximo, uma calvície incipiente, que ele tentava evitar usando produtos específicos, o que era destacado pelos desenhistas. Outros políticos daquela época, o início dos anos 1960, davam menos trabalho aos caricaturistas, como Tancredo Neves, Jânio Quadros e Carlos Lacerda, todos com expressões muito marcantes.

Mesmo assim, Jango foi um dos presidentes brasileiros mais retratados da história justamente por comandar o País em uma de suas fases mais atribuladas - desde que assumiu o cargo, a 7 de setembro de 1961, substituindo Quadros que renunciara, até 1º de abril de 1964, quando foi deposto pelos militares, ele enfrentou um conturbado contexto político que culminou justamente com o golpe. Durante esses três anos incompletos, Jango, tanto por ações realizadas ou cogitadas como presidente da República quanto por ter despertado temores, muitas vezes imaginários, de que pretendia trilhar projetos políticos radicais, despertou a ira criativa dos caricaturistas dos principais jornais.

Uma quantidade tamanha que despertou a atenção do historiador Rodrigo Patto Sá Motta que, em 2002, iniciou uma detalhada pesquisa. Logo, ele percebeu que as críticas embutidas nas caricaturas ajudaram a enfraquecer o governo, divulgando imagens que alimentaram o medo e a insegurança, caldo de cultura em que o golpe militar foi gerado. O resultado é o livro Jango e o Golpe de 1964 na Caricatura, que a Jorge Zahar Editor envia até o fim da semana para as livrarias.

O primeiro detalhe percebido por Motta foi o contexto histórico que favorecia aquela produção caricatural - nos primeiros anos de 1960, uma conjunção de elementos, nem sempre comum na história brasileira, apontava para uma polarização aguda entre esquerda e direita, gerando a sensação de que haveria uma ruptura grave (como um golpe ou uma guerra civil) e, ao mesmo tempo, uma relativa liberdade de expressão. “Por conta disso, a produção daquele período foi brilhante”, disse Motta ao Estado, por telefone, dos Estados Unidos, onde faz pós-doutorado na Universidade de Maryland. “Os caricaturistas estavam estimulados pelo quadro político e não sofriam ainda com mecanismos autoritários.”

Em seguida, depois de selecionar os desenhos mais expressivos como crítica política, aqueles que serviam como peças de intervenção no debate público, Motta separou os caricaturistas a partir de suas tendências. Assim, do ponto de vista político, os trabalhos de Hilde, Adail e Biganti aproximavam-se do ideário liberal, de feição marcadamente anti-esquerdista e anticomunista. “No caso de Hilde, essa postura vinha acompanhada do compromisso com o projeto político de Carlos Lacerda, cuja candidatura presidencial ela defendeu com entusiasmo.”

Já caricaturistas como Lan e Augusto Bandeira apresentavam postura ideológica menos nítida, uma vez que criticavam tanto a direita quanto a esquerda. “É interessante observar que essas diferenças ideológicas eram coerentes com as posturas assumidas pelos jornais em que os desenhistas publicavam”, observa Motta, lembrando que o primeiro grupo se concentrava em torno de jornais afinados com o ideário liberal, como O Estado de S.Paulo (Hilde Weber e Biganti), Tribuna de Imprensa (os mesmos Hilde e Biganti), enquanto esse pertenceu a Lacerda, e o sensacionalista Maquis (Adail). Lan e Augusto Bandeira eram desenhistas, respectivamente, do Jornal do Brasil e do Correio da Manhã, jornais que chegaram a apoiar alguns projetos reformistas.

Antes de transformar em livro, o material pesquisado inspirou uma tese em que Motta defendia a idéia de que, em épocas de grande insegurança e temor, “as formas de linguagem capazes de mobilizar a comicidade e o humor tornam-se particularmente atraentes, pois o riso ajuda a lidar com o medo”. Ele está certo de que as zombarias dirigidas a João Goulart não provocaram uma resposta agressiva da parte do presidente, tampouco foram responsáveis por sua queda. Mas ajudaram a construir um retrato desfavorável de Jango, realçando e atribuindo-lhe qualidades negativas.

Além da falta de cabelos, Jango era retratado com os olhos fechados ou voltados para o chão, que ressaltavam um certo retraimento e timidez, características do ex-presidente. Legítimo herdeiro do populismo de Getúlio Vargas, ele era, na ótica conservadora, um demagogo, autoritário e protetor dos comunistas. Para a esquerda, ao contrário, Jango era considerado um político sensível às causas populares. Desse confronto, que o próprio presidente não soube contornar, resultou o golpe militar.

Seu governo, aliás, começou sob o signo da crise, com a instituição do parlamentarismo, manobra encontrada pelos conservadores para limitar seu poder. O esforço de Jango em retomar o regime presidencialista acentuou, para os caricaturistas, sua imagem de líder esperto, capaz de montar estratégias maliciosas para alcançar seus objetivos. “Havia muita argúcia política no traço desses desenhistas”, comenta Motta, lembrando que ambigüidade política de Jango era muito explorada.

À medida que o tempo passava, porém, essa ambigüidade passou a ser encarada como pura encenação para esconder suas reais intenções continuístas. Nem a crise econômica e a inflação galopante batiam o temor maior dos conservadores, que era o provável desejo de Jango se tornar ditador. “O receio de que o presidente estava pendendo para o comunismo foi fundamental para sua derrubada, como mostram algumas caricaturas, especialmente as de Hilde, ao mesmo tempo cruel e genial”, diz Motta, para quem os desenhos ajudaram a criar uma imagem pública do presidente. E, de alguma forma, auxiliaram a derrubá-lo.
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