8 de out de 2006

Conflito sectário paralisa a vida dos jovens iraquianos

Em uma sala de estar mal iluminada no centro de Bagdá, Noor é um solitário prisioneiro adolescente. Muitos de seus amigos deixaram o país e alguns que permaneceram adquiriram novos hábitos estranhos: um xiita posa como se tivesse virtude superior, um sunita ingressou em uma gangue armada.

Aos 19 anos, Noor não está trabalhando e nem está na faculdade. Ele nem mesmo pode sair de casa.

Três anos e meio após a invasão americana, a violência implacável que desfigurou grande parte da sociedade iraquiana está atingindo os jovens iraquianos de novas formas. Jovens de cinco bairros diferentes de Bagdá disseram que suas vidas encolheram ao tamanho de seus quartos e que seus sonhos foram praticamente abandonados. A vida é vivida em momentos. Não é mais possível fazer planos.

"Eu não posso sair, não posso ir à faculdade", disse Noor, sentado na cozinha aguardando o chá ferver. "Não importa se me matarem, porque já estou morto."

As forças armadas americanas estão tentando tratar do problema. Em agosto, elas iniciaram a mais sistemática série de varreduras em Bagdá desde o início da guerra, tentando tornar seguros os bairros mais perigosos para um retorno à normalidade. Isto parece estar surtindo algum efeito, com uma queda de 17% nas mortes em agosto em comparação a julho, segundo um relatório da ONU baseado nas estatísticas do necrotério.

Mas a violência entre as seitas continua aqui em ritmo frenético, eliminando cada vez mais o meio termo que resta. Os jovens iraquianos que tentam resistir à sua influência estão paralisados em um presente impossível, sem nenhum bom futuro à vista.

A velocidade de tal queda tem sido de tirar o fôlego. Há poucos meses, Noor estava realizando seus exames finais, discutindo com seu irmão mais novo e saindo com seus amigos. Mas a violência tocou a família. O sócio de seu pai foi morto em uma estrada no deserto, longe de Bagdá, por ser um xiita, e as coisas começaram a desandar.

Temendo que o homem pudesse ter divulgado detalhes sobre eles, os pais de Noor aceleraram seus planos para Noor e seu irmão mais novo deixarem o Iraque. Seu irmão foi enviado para a segurança do norte do Iraque, mas Noor foi forçado a voltar depois que as autoridades britânicas rejeitaram seu pedido de visto de estudante.

Desde que voltou, ele passa a maior parte de seu tempo no computador na sala de estar, escutando os sons da vida além de seu portão. Ele quer se matricular em uma faculdade daqui e até mesmo fez com que um amigo lhe enviasse escondido um requerimento de matrícula, mas seus pais não permitem que ele saia. Os campi são ambientes mistos voláteis de seitas e etnias e as mortes de estudantes por motivos sectários não são mais raras.

Antes da epidemia de assassinatos no bairro ter começado no ano passado, era raro um iraquiano de classe média que conhecesse alguém envolvido em morte sectária. Mas à medida que mortes se disseminaram, porções maiores da população se radicalizaram.

Para Noor, um sunita secular que é de classe média, as mortes sectárias romperam seu círculo de amigos. Um amigo de Adhamiya, o centro árabe sunita de Bagdá, ingressou em uma milícia do bairro após o pai ter sido morto a tiros diante de sua casa. Noor ouviu por meio de amigos que ele armou uma bomba na estrada para matar soldados iraquianos.

"Ele odeia os xiitas porque mataram seu pai", disse Noor, falando inglês fluente. "Ele virou uma pessoa diferente. Ele virou um monstro."

É tal radicalização que mais assusta a mãe de Noor. Grande parte das vítimas e os perpetradores nos casos de mortes sectárias são jovens, e com poucos empregos e sem esperança de Justiça por meio do governo, gangues armadas e milícias são extremamente atraentes.

"Eu tenho medo que ele seja atraído por certas correntes", ela disse. "Há muita raiva."

Alguns poucos amigos xiitas de Noor sentem uma nova paixão por sua identidade e agora ele sente dificuldade de se relacionar com eles.

"Eles mudaram", ele disse. "Eles falam muito sobre identidade."

"Não posso contar a eles o que realmente sinto. Eu sinto que algo ruim pode vir da parte deles."

Há cerca de um ano, a maioria dos iraquianos rejeitava o temor de uma guerra sectária. Eles argumentavam que iraquianos de seitas diferentes sempre conviveram e nenhuma quantidade de bombas mudaria aquilo. Mas após a mudança do estilo da violência, de carros-bomba espetaculares, armados pelos sunitas, para assassinatos silencioso em bairros de ambas as seitas, poucos ainda mantêm tal crença.

Outro jovem, Safe, 21 anos, monta guarda com uma metralhadora três noites por semana para proteger seu quarteirão no devastado bairro de Dora. Sendo sunita, ele teme os esquadrões da morte e policiais xiitas. Sete de seus amigos foram detidos e espancados. Ele já atendeu mais de uma dúzia de funerais de sunitas assassinados nos últimos meses.

"O sectarismo entrou em nossa vida por todas as portas", ele disse.

"Eu tenho medo destes postos de controle. Eles dizem que é apenas por cinco minutos, mas mantêm você por um mês."

A batalha constante deixou um gosto ruim em sua boca por xiitas que afirmam fortemente sua identidade. Ele se envolveu em uma briga com um estudante xiita na escola de medicina onde estuda. Seu campus fica no leste de Bagdá altamente xiita. Um professor se referiu aos poderes de cura de um imã xiita durante uma aula de psicologia nesta ano, para fúria dos estudantes sunitas. Ele até mesmo considera irritante as jóias xiitas, os anéis de prata com pedras arredondadas.

"Quando as vejo eu tenho vontade de vomitar", disse Safe, se referindo aos xiitas chauvinistas.

Dora, um bairro de classe média antes misto, se tornou um dos mais letais para os xiitas nos últimos dois anos. Moradores xiitas relatam mortes brutais por ofensas como colocar cartazes de santos xiitas em lojas. Agora poucos xiitas permanecem no bairro.

Safe reconheceu que os xiitas se tornaram alvo, mas disse que os rebeldes apenas perseguiam aqueles que trabalhavam para os americanos. Outros xiitas receberam ameaças por espionar nas mesquitas, ele disse.

(Ele já trabalhou em uma base americana por dois meses, logo após a invasão, mas não recebeu uma ameaça porque aqueles que as faziam o conheciam, ele disse.)

O pai de Safe morreu quando ele era pequeno e sua mãe morreu de câncer no ano passado. O grupo de vigilância de seu bairro o ajuda a ter um senso de propósito, de se sentir conectado, em um momento em que os jovens iraquianos estão mais isolados do que nunca.

"Se algo acontecer, nós todos enfrentaremos juntos", ele disse.

Apesar de servirem como novas redes sociais úteis, os grupos são praticamente baseados em identidade sectária, ajudando a reforçar distritos cada vez mais homogêneos. Safe não tem parentes xiitas e nenhum plano de se casar. Mesmo se o fizer, ele nunca aceitaria uma xiita, ele disse.

Enquanto Bagdá se torna cada vez mais dividida em um leste xiita e um oeste sunita separados pelo Rio Tigre, a vida no bairro está se tornando igualmente homogênea para jovens xiitas.

Toda manhã, Ali Wahid, 27 anos, dirige sua moto até além do empoeirado campo de futebol no maior distrito xiita da capital, Sadr City, para trabalhar no sudeste de Bagdá. Ele se agarra firmemente ao seu emprego, um projeto de abastecimento de água que faz parte do esforço americano aqui, mas nunca concorda em ir a oeste do Tigre, onde bairros sunitas são mortais para os xiitas. Um amigo, Hamza Daraji, que realiza vários bicos em Sadr City, disse que ele não sai do distrito há dois anos.

Wahid, sentado de perna cruzada no chão de seu modesto sobrado, disse que sua vida melhorou desde a invasão. Seu emprego lhe permitiu pagar as dívidas, comprar uma casa em conjunto com seus irmãos e até mesmo bancar um casamento. Há menos sunitas em sua vida agora do que quando Saddam Hussein governava. De certa forma, as relações naquela época eram mais fáceis, ele disse, porque como classe governante, os sunitas dificilmente atacavam.

"Antes eu podia contar piadas de Saddam para sunitas", ele disse. "Agora se eu falar contra ele, tenho medo que possam me fazer algum mal posteriormente, de alguma forma velada."

A escola de ensino médio Sharqiya, no centro de Bagdá, iniciou o dia com uma oração na quinta-feira. O novo diretor da escola, um religioso xiita, adotou o passo incomum de dizer a todas as estudantes, várias centenas de meninas, que "a primeira forma que saudamos a bandeira iraquiana é fazendo orações para Muhammad e sua família", se referindo ao profeta Maomé e seus parentes, que os xiitas consideram santos. Três cristãs armênias hastearam a bandeira.

"Nós nos sentimos desesperados, desesperados, desesperados", disse Sena Hussein, uma diretora assistente cuja filha estuda na escola. A escola, antes conhecida na cidade por seu time de basquete, não mais promove esportes após as aulas, já que os pais consideram arriscado demais. Os troféus em uma estante de vidro empoeirada ficam próximos da sala do diretor. Até mesmo as matrículas diminuíram. A escola costumava receber 150 novos alunos por ano. Neste ano foram cerca de 60.

As perspectivas de ensino superior para mulheres na capital também diminuíram.

Sara, uma graciosa aluna do último ano com inglês perfeito e apenas notas A, não será autorizada por seus pais a ir para a faculdade no Iraque, por temor de ser morta por motivos sectários a caminho dos campi ou neles. Tal cautela reduzirá a mistura de jovens iraquianos dos sexos masculino e feminino, já que a faculdade representa a primeira chance de se misturarem. Há separação dos sexos nos colégios iraquianos.

O futuro está totalmente incerto para mim agora", ela disse no pátio da escola enquanto meninas conversavam atrás dela, limpando as salas de aula. "Eu não sei o que aconteceria comigo na faculdade. Eu poderia ser morta."

Em uma conversa posterior em seu celular, após o jantar do Ramadã, Sara disse que sua família está tentando deixar o país, mas que se não conseguirem sair, ela considerará seriamente se casar após o colégio. Sua mãe se casou aos 24 anos, após se formar em engenharia civil.

"A época dela foi diferente de milhares de formas", ela disse, com sua voz jovem repentinamente séria. "Eu tenho dificuldade para aceitar. Não há sonho para mim. Eu nem consigo pensar claramente."

Ela fez uma pausa e então disse o refrão familiar: "Eu realmente quero partir do Iraque".
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