23 de set de 2006

Faculdades fazem reuniões de pais, como no tempo da pré-escola

Instituições convocam família para apresentar planos
e instalações, mas algumas até deduram alunos

Renata Cafardo

Lá se foi a liberdade total tão sonhada pelos estudantes quando chegam à universidade. Faculdades privadas passaram a chamar os pais dos alunos para reuniões ou para a recepção de calouros. A intenção, explicam, é a de apresentar a instituição, mostrar em que os pais investirão nos quatro anos seguintes. Mas já há também as que deduram aos pais o fraco desempenho dos filhos.

“A faculdade é um lugar novo, só nosso. Pareceu muito aquela coisa reunião de pais da escola”, diz Karina Azevedo, de 18 anos, caloura da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Eaesp/FGV). Apesar de não ter gostado muito da idéia, foi com a mãe a tiracolo na primeira semana. E não só ela. Cerca de 200 mães e pais - o mesmo número de aprovados a cada semestre - aceitaram o convite para participar da recepção de novos alunos no mês passado, pela primeira vez. Mas nem todo mundo reclamou. “Me senti mais segura”, afirma Julia Cambiaghi, de 17 anos, que chegou com o pai.

A coordenadora na FGV, Marta Farah, conta que esperava um ou outro. “Mas foi um sucesso.” A diretoria apresentou os professores, as instalações, falou das parcerias internacionais. “Pode parecer contraditório, mas os chamamos até para reforçar nos alunos uma atitude de maturidade. Falamos, com todas as letras, que eles não devem telefonar para a faculdade para resolver problemas dos filhos”, explica.

Os pais aprovaram. “Não foi nada infantil. Compreendi melhor como funciona a FGV e agora posso ajudar a minha filha a planejar seus estudos”, disse o empresário Edgard Cambiaghi, pai de Julia. “Foi esclarecedor, tive uma idéia melhor do que eles oferecem. Mostraram reportagens, depoimentos dos ex-alunos”, lembra Elizabete Emi Kawase, mãe da aluna Juliana.

TENDÊNCIA

A FGV aderiu neste ano a uma tendência que já faz parte do dia-a-dia das concorrentes, o Ibmec São Paulo e a Faculdade de Campinas (Facamp). As três instituições têm mensalidades que beiram os R$ 2 mil. Para o especialista em ensino superior da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Abílio Baeta Neves, atrair os pais para a universidade é também uma estratégia de mercado. “É uma maneira de mostrar serviço e justificar o investimento.”

Na Facamp, conta o diretor João Manuel Cardoso de Mello, tem até puxão de orelha. “Se o acompanhamento do aluno estiver capenga, chamo o pai. Os jovens são muito imaturos.” Fora isso, há duas reuniões por ano com a direção. “Não chamar os pais é ignorar como a sociedade brasileira funciona hoje. Os jovens moram com eles”, diz o diretor acadêmico do Ibmec, Marcelo Moura.

O administrador de empresas Antonio Carlos Silva, pai de dois alunos da Facamp, se disse surpreso quando soube da primeira reunião, mas gostou do que ouviu depois. “Achava que isso só existia na escola, mas as faculdades estão mudando.” O filho Mateus, de 22 anos, também nunca achou ruim. E diz que sempre que precisou resolver algum problema burocrático, apelou para a mãe. “Ela armava um barraco e as coisas se resolviam.”

Instituições públicas, como a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) fazem o mesmo. Desde 2000, ano seguinte à morte de um aluno na piscina da atlética, os pais participam da semana de recepção a calouros. No campus de Santos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), inaugurado neste ano, a primeira semana incluiu atividades com os pais.

Para a professora de psicologia da educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Ana Bock, fazer reuniões de pais em universidade é uma “concepção equivocada” de uma instituição de ensino. “Práticas como essa levam à adolescência esticada.” Ela afirma que um dos papéis da escola é justamente considerar o aluno como o responsável pelo processo de aprendizagem. “Não se pode agir como se estivesse oferecendo uma mercadoria a uma família, cujo usuário é o filho.”
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